Prefácio

um dia depois de muito andar uma pessoa me disse até com certa delicadeza que meu caminho era clássico e um tanto conservador não tenho nenhuma dúvida disso mesmo porque ninguém caminha com seus próprios pés toda caminhada exige um passo que já foi dado antes o que diferencia o clássico do contemporâneo são justamente as pegadas que aqueles deixaram para que estes possam trilhar livremente suas formas o chão que se pisa agora até parece novo mas não é porque nele está impresso rastos antigos o desespero dos caminhantes de agora é conseguir abrir novas trilhas num chão demasiadamente estriado para ser fiel a deleuze e guattari já pisei os clássicos cortei atalhos nos contemporâneos e sigo em frente sabendo que meu chão é clássico mas tem uma longa construção que incorpora outros tantos rastos inclusive os das ciências humanas e da filosofia nas trilhas por onde ando não temo a sombra de curiangos nem me assusto com os lamentos de mães-da-lua mas acaso uma acauã pousada num galho de aroeira cante à seca do sertão não me dobro ao desalento pois sei que uma serpente a menos é melhor que a velha crença de que seu canto é agoura que faz a chuva demorar olho à minha frente as novas pegadas e algumas vezes me viro para reparar o chão que pisei outrora e fico pensando naquela breve advertência depois me olho firme sabendo que já pisei sobre os rastos de camões me curvei a dostoievski meus passos já se confundiram com as sandálias de vieira e meu verso se esbarrou no ombro de mayakovisk fico calmo sabendo que sou velho não nego o novo e para além disso o chão que piso é sólido igual pedra não se desfaz nas ondas como os castelos de areia posso ser clássico sem me curvar ao contemporâneo mesmo com muita dificuldade para dizer palavrões sei que nunca tive um all star nunca fumei baseados mas minha biblioteca é meu ópio minha droga e inauditos palavrões

salô Souza,

 outono de 19

Eme, uma estranha mulher

Todos nós conhecemos pessoas. Quem não as conhece? Mas todos nós sabemos que as pessoas que conhecemos têm algum comportamento estranho. Isso é válido inclusive para aquelas mais íntimas, como um irmão gêmeo que, de repente, resolve sair sozinho e recusa a companhia do outro, sabe-se lá por quê. Basta reparar melhor o comportamento das pessoas e logo você notará alguma coisa de estranho nelas: um gesto esquisito, algum tique nervoso, hábitos como, por exemplo, falar quando deviam ficar caladas e se calarem quando deviam falar. Isso é muito estranho. Mais até que aquela outra mania de enxergar nos outros seus próprios defeitos e de fazer juízo das coisas só para conseguir alguma audiência.

Assim são os moradores do conjunto habitacional Ká Ha, na rua Vinte e Tantos, onde moro no duzentos e dez desde a inauguração do prédio. Comprei na planta, financiado pela Caixa em cento e sessenta prestações. Ali, como em qualquer outro lugar, está cheio de gente estranha. Umas mais, outras menos.

Acontece que, há mais ou menos quatro anos, mudou para o trezentos e doze uma estranha mulher. Mais estranha que o Dáblio, morador do cento e um, que fica o dia inteiro na portaria vigiando os rapazes que chegam em visita a alguém, até mesmo o entregador de pizza, os funcionários da companhia de água e luz que vêm anotar os números dos medidores, ou o carteiro trazendo encomendas de Sedex e telegramas. Mais esquisito que a Tê, uma senhora aposentada, vizinha de Dáblio, moradora do cento e três. Enquanto Dáblio vigia os homens, rapazes e rapazolas a Tê vigia as meninas-moças, as mulheres casadas e solteiras.

Foi num dia de semana, se não me engano, uma quinta-feira no meio da tarde. Chegou numa Kombi com toda mudança: uma cama desmontável e o colchão de solteiro; uma mesinha de fórmica com pés tubulares; geladeira e fogão já bem surrados e duas almofadas grandes, bordadas em cores vivas, provavelmente para substituir o sofá que não veio na mudança. Ela tinha uns trinta e cinco anos, no mais quarenta.

Vestia uma roupa comum, blusa básica, calça jeans e um par de tênis muito pouco feminino. Vinha sentada no banco da frente, ao lado do motorista, um velho de, talvez, uns setenta anos ou pouco mais e que fumava e tossia com frequência. Não trazia ajudante consigo e não a vi pagando pelo carreto. Talvez tivesse feito o pagamento antecipado ou aquele velho fosse um amigo prestando-lhe um favor.

Desceu do carro, abriu a porta lateral e foi logo tirando as coisas da carroceria, colocando-as no chão de cimento pelo lado de dentro do portão. Primeiro tirou a cama, peça por peça. A seguir trouxe o colchão, as almofadas e por fim, com a pouca ajuda do velho, tirou a geladeira e a levou até o hall de entrada, em frente ao elevador. Voltou e, da mesma forma, pegou o fogão e o arrastou, aos trancos, até depositá-lo ao lado da geladeira. Os dois, o velho e a nova moradora, com muita dificuldade, colocaram a geladeira dentro do elevador e, enquanto o velho segurava a porta, ela trazia as peças da cama e uma mala já bem puída onde imaginei estarem dobradas todas suas roupas.  Tudo arranjado dentro do pequeno espaço do elevador que fechou a porta e subiu até o terceiro andar. Algum tempo depois voltaram e, da mesma forma, levaram o fogão, dessa vez junto com o colchão, a mesinha e as duas almofadas. Demoraram um tempo muito maior dessa vez, até que o elevador se abriu e ela despediu do velho, retendo a porta por uns segundos, talvez minutos. Depois que o velho fechou o portão do prédio atrás de si e se encaminhou para a velha Kombi, num passo atrás, recolheu seu corpo magro e desapareceu dentro do elevador, de volta para sua nova morada.

Pensei que pudesse ser uma viúva sem filhos; uma mulher casada que tivesse brigado com o marido e resolvido dar um tempo, morando sozinha. Ou, então, uma solteirona mal resolvida, que não conseguiu casamento, não por ser feia, que isso ela não era. Tinha até um ar refinado, certa elegância e nobreza orgulhosa. Talvez não tolerasse os homens, não cultivasse esses desejos que levam as mulheres a sonharem com um príncipe encantado, na ilusão de encontrar o par perfeito, esquecendo que as pessoas têm seus jeitos estranhos que, na maioria das vezes, só são notados quando se vive na intimidade.

Notei logo, com certa desconfiança, que ela ficava em casa o dia inteiro e saia todas as noites. Pegava o ônibus quase em frente ao prédio, por volta das dezoito horas. Voltava quando o dia já era amanhecido e as pessoas normais já saíam para um novo dia de trabalho. Cheguei a comentar com meu amigo Dáblio que ela poderia ser uma garota de programas, dessas que vão para as esquinas e ficam esperando clientes.

Jamais recebia visitas e nunca fora vista falando com os moradores, nem mesmo Jota, o síndico do quatrocentos e dez. Inúmeras vezes fiquei na portaria, jogando conversa fora com o Dáblio e a Tê. Esta conhecia todos os moradores, exceto Eme – era esse o nome daquela mulher, dizia Tê, orgulhosa da ideia de arrancar do síndico o nome da nova moradora. Prolongava nossas conversas até Eme chegar ao portão e, então, apressava o passo e, numa solicitude fingida, chamava-lhe o elevador. Ela, esboçando sutil riso, passava direto e subia pelas escadas. Parecia saber do jogo de futebol que me quebrara a rótula do joelho direito; adivinhar as cirurgias, os parafusos e minha completa impossibilidade de subir escadas, o que me fez aposentar mais cedo.

Há muito desisti dessa empreitada, não porque sou de desistir fácil das coisas, mas porque tive medo que ela me acusasse de assédio, especialmente depois que fui flagrado com o ouvido encostado à sua porta. Tentava escutar alguma possível conversa ao telefone, uma discussão, um encontro marcado que, com sorte, pudesse ter endereço, o local ou mesmo o nome de algum homem. Qualquer coisa que dissesse sobre ela.

A porta se abriu de repente e eu tentei arranjar uma desculpa. Disse que estava passando por ali e pensei que ela pudesse estar precisando de alguma ajuda, já que o blecaute daquela tarde, durante uma tempestade, poderia ter queimado alguma lâmpada. Ela parece não ter acreditado naquela desculpa. Passou por mim sem ouvir o que eu tentava dizer e foi direto colocar a sacolinha de lixo na portinha à frente do elevador. Voltou rápido e fechou a porta até de forma meio brusca. Tive medo que ela me denunciasse ao síndico ou mesmo à polícia. Depois daquele dia resolvi me afastar um pouco daquela investigação.

Mas tudo mudou naquele domingo em que Eme, pela primeira vez, não saiu à noite. Conversava com Dáblio e Tê que me garantiam que ela havia saído no início da tarde e, já no finalzinho, voltou apressada. Usava óculos escuros. Achei aquilo muito estranho e todos concordaram comigo. Dáblio disse que talvez Eme tivesse perdido o emprego. Tê pensou que poderia até estar doente. Quem sabe, precisando de ajuda. Mas aquela estranha era mesmo inacessível. Ninguém sabia ao certo o que acontecia e se tinha alguma coisa que pudesse ser feito por ela, caso precisasse.

Na segunda, Eme saiu bem cedo. Levava uma sacola de algodão cru bordada à mão. Usava óculos escuro, embora o sol ainda não tivesse nascido direito e o dia fosse um pouco nublado. Tê estava de plantão, pronta, com seu cartão de gratuidade à tiracolo para servir-lhe naquela emergência. Quando Eme saiu pelo portão Tê foi atrás, cuidando para manter alguma distância. Sentou-se no banco do ponto de ônibus e ficou atenta, observando os movimentos de Eme. Talvez não tenha notado quando ela tirou da sacola um lenço branco, dobrou em forma de triângulo e passou uma das pontas sob os óculos.

O ônibus chegou, Eme entrou rápido e Tê seguiu atrás, passou pela roleta e foi sentar-se num banco preferencial, enquanto Eme ficava em pé junto à porta do meio. Tê não desgrudou o olho dela até que, já na área hospitalar, Eme puxou a cordinha, sinalizando a descida. Enquanto desembarcava pela porta do meio, Tê, sorrateiramente, descia pela porta de trás. Eme passou para o outro lado da rua, atravessou a praça e foi direto para o Pronto-Socorro. Tê foi atrás e tentou escutar o que Eme falava com a atendente de uniforme azul escuro que, depois de tomar notas num caderno, abriu o portãozinho ao lado por onde Eme desapareceu, corredor adentro. Tê ficou sentada na recepção esperando sua volta. Já passado mais de duas horas tomou coragem e foi falar com a moça do atendimento que se negou a dar qualquer informação e ainda a ameaçou por querer “bisbilhotar o que não é da conta”, como disse a lapidada funcionária da recepção.

Mas Tê era mesmo insistente. Ficou ali sentada até o meio da tarde, sem almoço e sem trégua. Já era umas quatro horas quando Eme saiu. Tinha um ar abatido e foi possível reparar que sua sacola estava bem mais cheia que quando chegara. Ganhou a avenida e, apressada, seguiu rumo à Santa Casa. Tê seguiu-a de longe, quase sem fôlego, até vê-la entrar numa funerária. Pensou entrar também para ver se escutava alguma coisa, mas desistiu. Àquela altura ela já não aguentava de fome e estava muito cansada. Voltou para casa e nos deu as informações que tinha colhido.

Fiquei sabendo na terça-feira ao folhear o jornal na banca vizinha ao condomínio. Aquela foto da capa do jornal não negava a semelhança. Comprei-o na hora, prometi pagar depois, não tinha um e cinquenta, mas desculpei por não ter trocado. Pagaria depois. Rateamos na portaria do prédio e cada um pagou cinquenta centavos pela notícia.

Tinha quinze anos, era estudante do Municipal e fora atropelada por um bêbado na madrugada de domingo, quando voltava de uma festa com o namorado, também aluno do Municipal, “este ainda internado, mas fora de perigo”, dizia o jornal. A mãe, enfermeira, encerrava o plantão na manhã de domingo, quando deu entrada na urgência os dois adolescentes. Ela com sério traumatismo craniano e ele com fratura exposta na perna direita e um profundo corte no rosto. O jornal havia entrevistado a mãe da vítima na Delegacia, onde o motorista estava detido por conduzir sem habilitação e embriagado. Perdera o controle do veículo e, subindo na calçada, atropelou o casal.

Queria muito ir ao velório, mas tive medo de não suportar a dor daquela estranha mulher.

Luz

Fazia frio naquela noite, mas a chuva já não caia. É verdade que soprava aquele vento gelado que corre atrás do sol, quando é crepúsculo, e se difere do outro que vem à sua frente, na aurora. O primeiro parece envolver o sol em sua própria sombra; o outro, agarrado aos raios da manhã, arranca-o do breu da noite. Noite que, é bom que se diga, aguçava o frio daqueles que, desprovidos, dormiam sobre marquises, muitos deles envoltos em cobertores curtos e puídos.

Foi ali, bem no coração gélido dos Jardins, que a vi deitada num canto de calçada. Era jovem, negra e estava grávida. Usava uma pequena manta com a qual tentava encobrir seu igualmente miúdo corpo. Como catre só o chão de cimento; seu colchão não passava de estreita folha de papelão fedendo a mijo e suor. Sequer aquele lugar se assemelhava à tal manjedoura, como dizem ter sido o lugar de nascimento do Cristo. Faltava-lhe, é verdade, os bois e os cavalos, aqueles animais de quatro patas que, acreditamos, testemunharam o nascimento do nazareno. Mas vale registrar que, pobreza por pobreza, ali não faltava nenhuma. Quanto aos animais há que se duvidar, até porque, de alheamento, o mundo está mesmo cheio: alguns bípedes outros tantos não.

O táxi estava parado no farol e ela ali, a poucos metros, deitada ao lado da guarita de suntuoso condomínio.

Sombras

As luzes enfeitavam ruas e avenidas. O táxi parou no farol naquele exato instante em que o segurança acionou um botão verde no painel da guarita, abrindo, lentamente, o portão azul da garagem. Subindo a rampa, um Lamborghini vermelho mergulhou nas luzes da cidade. Qualquer olhar mais atento teria percebido, dentro daquele automóvel, um jovem e sorridente casal, quem sabe, saindo para cear com amigos e parentes em outro lugar qualquer da metrópole. Traziam, nas suas faces brancas e lisas, fartos e largos sorrisos. O teto recolhido deixava entrar toda luz, colorindo seus dois ocupantes. A poucos metros, sob as sombras da guarita, notava-se o vulto de pequena manta cobrindo um corpo de mulher. Tivesse a moça olhado para sua direita e saberia de onde vinha aquele choro de criança. Mas, convenhamos, seu Natal não teria sido tão feliz.

O vão do forno, ou de umas lembranças vagas, ou de velhas cicatrizes

Aquentava-me ao fogo sobre o fogão de lenha. A cozinha da fazenda, grande! O forno arredondado, num canto, estava sem o tacho. Cinzas brancas forravam o chão. Não sei quem tinha me colocado ali no alto. Sei que não conseguia subir nem descer. Era manhã. Ainda! A mãe saiu correndo, em socorro. Deixou a chaleira fervendo para o café. O pai, já na lida, encheu-se de autoridades. Estacou o Tê na porteira: “aqui você não entra, compadre!” Eme era só pavor. Entrou pela casa, desorientada. Já na cozinha, acocorou dentro do forno. Filho pequeno no colo. Tê prometia matar. Garrucha não mão. O pai ordenava: “não põe a mão na comadre, senão eu mesmo te boto na cadeia”. Negociação longa! O Tê voltaria para casa. Mãos dadas com Eme. Sem reclamar nem fazer mal a ela nem ao afilhado. Promessa feita. Palavra de homens bravos. Brutos como aquele chão de pedras. Eme saiu, encolhida. A mãe a segurava pela mão. Igual índia: sem medo de temporal. Eme e seu bebê. A mesma idade que eu tinha. Foram juntos, sem briga. O Tê remoendo raivas. A Eme digerindo incertezas. O tempo cura as perebas, mas a mancha nas cinzas do forno e aquele cheio de mijo, nunca cicatrizaram.

Palidez

O barro macio nas mãos, corpo desnudo, o sobe e desce em pedra d´água. O pequeno desdenha pé de juá e abelhas no cabelo, nos ouvidos, nos sovacos. O canto do inhambu, ritmado, ecoa nas baixadas. Muito zelo para tão pouco menino. O barranco íngreme, pé de araçá no meio do rochedo e, lá no alto, tateia o irmão. Enquanto só, argila na concha das mãos: gente, canga, rodas, carro-de-boi. O caminhão passa na estrada. O menino apanha a vista e molda o barro. Carvão, refratários, fornos, nada que pudesse guardar o imaginado ali. Só um instante de menino e sol forte para secar a argila sobre a pedra. Depois, esquecido, a cheia da grota leva embora os bois, o caminhão e outros sonhos. Zumbido na orelha, abelha em loca de pedra. Corre menino! O irmão desce rolando. Ribanceira, espinhos e um baque surdo no lajeado. Só o grito do menino desespera. Depois, muito mais tarde, num outro dia qualquer daquele silêncio, o molde esquenta ao sol, sobre a mesma pedra. Pálido corpo em argila espera a vinda das cheias.

Metade não, ou do inteiro pelo inteiro, ou o outro e eu, completos

Nunca te quis metade, mesmo porque me pretendo inteiro. Ocasionalmente amamos, ou melhor, creio que te amo, pois meus sentidos, descartadas as variáveis, apontam a assertividade dessa conclusão. Nesse sentido, não seria válido a mesma aproximação do que por mim sentistes, porque os sentidos meus são somente meus e não posso garantir, num juízo razoável, sua reciprocidade. Dia desses li um poeta que dizia ser a metade de uma laranja só completada pela amada. Ora! Jamais quis ser sua metade, muito menos de uma laranja. Que horrenda comparação! Imagino-te uma metade de laranja cujo caldo eu sugaria, espremendo bem até implodir todas suas células e, já bagaço – que horror! – sem viço nenhum, imagino jogando-te numa lata de lixo. Não! Não te quero laranja! Nem inteira, nem metade. Quero-te humana, livre. Amo-te e creio que, pelo menos em alguns momentos, fui correspondido. Espero que no dia que meus sentimentos ou os teus não se corresponderem, que eu esteja inteiro para escolher e trilhar novos caminhos. E, francamente, não pretendo subtrair de ti a mínima parte para que, também inteira, possa escolher os teus. Abomino esses hábitos antropofágicos, esse canibalismo cultural.

O outro, ou das chagas de algum Assis, das penas de certo Afonso e da relação entre intestinos doentes e uma Mercedes novinha

Conheço muitos Assis. Uns famosos, outros nem tanto. Pensando bem existem Assis para todo gosto. Sabemos de alguns já muito antigos, outros simplesmente velhos. Tem Assis que, de tão velho, já morreu; outros velhos e ainda vivos, embora já decrépitos; há poucos já muito velhos, mas ainda vivos, lúcidos e saudáveis; uns tantos ainda jovens e até alguns que ainda não nasceram.

Ser um Assis é ter nome, corpo e um jeito diferente de ser. Vale pensar no quanto alguns deles estão presentes em nossas vidas: tem aquele que conversava com os bichos e que até hoje inspira orações e paz; tem um que remete ao Masp e ao passado das comunicações, além de ser nome de avenida; tem outro muito famoso, fatal nas antigas provas de vestibular, sempre rigoroso nas letras, certeiro nos irmãos gêmeos e vingativo nos amores da Capitu.

Recentemente conheci dois ainda bem jovens: o primeiro é blogueiro com pretensão de fama e o outro é jogador de futebol e sonha com contrato milionário em Euro; um tal que é médico, faz cirurgia dos intestinos e tem uma Mercedes novinha; outro, pernambucano, metido a justiceiro e esteticamente ridículo; tem ainda um colunista num jornal do interior e outro, adolescente, zagueiro em time de várzea e que pretende ser profissional no Galo, seu time do coração.

Acho uma graça um certo Assis que é ainda bebê e já ensaia os primeiros passos; gosto também de outro, já maiorzinho, que joga futebol no time de meu neto e isto é muito bom, afinal, antes de ter um nome e um corpo, pensar em ser famoso, ficar velho, fazer bons contratos, cirurgia dos intestinos ou falar com os bichos é preciso cuidar da saúde. É por este motivo que, embora não jogue futebol, gosto de caminhar: aos domingos na orla da lagoa e, durante a semana, em percursos mais curtos, nas ruas e avenidas do bairro Liberdade.

Foi numa dessas andanças que fiquei sabendo da existência de outro Assis. Não sei o quanto ele foi ou ainda é famoso, mas posso afirmar que não estava mendigando, com feridas expostas, deitado sobre papelões numa calçada imunda. Nada disso! Embora a rua fosse feia e os passeios irregulares e esburacados, este meu novo conhecido expunha suas Chagas numa placa azul, grudada num velho muro ao lado de largo portão sobre o qual se lia o nome engraçado de uma oficina mecânica e algo sobre reboque.

Fiquei pensando nas chagas daquele Assis e, sem motivo algum, tive pena do Afonso.